"Eu sabia que havia algo para mim ali, algo muito pessoal, relacionado à descoberta de quem eu sou, que eu precisava viver e entender."

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Itália, fevereiro 2022



Eu desembarquei no Aeroporto Peretola em uma quinta-feira, por volta das oito e meia da noite no horário local. É um aeroporto pequeno, apesar de internacional, e tem uma coisa sobre aeroportos que me fazem sentir como se eles não pertencessem a lugar algum. É um local de passagem, sem nacionalidade, com línguas e sotaques misturados, onde você mal consegue perceber em que país está a não ser pelo idioma em uma sinalização ou outra. Eu estava anestesiada após quase 24 horas de viagem, 3 vôos diferentes, e apesar de eu saber onde eu havia acabado de pousar graças ao anúncio do piloto do avião, eu ainda não conseguia acreditar.

Eu me sentia como se eu estivesse em suspensão.

Saí do aeroporto para deixar as malas no que então seria meu endereço pelos próximos 2 meses. Até então sim, 2, apenas 2, porque o plano inicial era esse. Não era tempo demais, nem tempo de menos, mas era o suficiente para eu ter uma experiência que iria além do turismo - eu queria sentir o gostinho para poder ter certeza. No fundo, acho que a certeza eu já tinha, mas quando a gente passa tanto tempo sonhando com uma coisa pode ser um tanto difícil separar o que é realidade ou o que é fantasia. Nos 2 anos anteriores, minhas memórias e minhas expectativas se misturaram, e ali estava eu, finalmente, prestes a viver tudo aquilo de verdade. Peguei a chave do meu quarto - enfim, casa - e saí para comer uma pizza - como se houvesse alguma chance de querer comer qualquer outra coisa depois de ter acabado de chegar na Itália. L'Antica Pizzeria da Michele, uma das mais famosas da Itália, aquela em que a Julia Roberts aparece comendo em Comer, Rezar, Amar, e apesar de a cena do filme ter sido gravada na pizzaria original em Nápoli, eu não me importei - era meu próprio comer, rezar, amar começando ali mesmo, em Florença.

Ah, Florença. Apesar de já estar na cidade há algumas horas, eu só dei por mim que eu estava realmente lá quando atravessei o Arno e pude ver a Ponte Vecchio de cima da Ponte Santa Trinita. Eu ainda não sabia os nomes daquelas pontes todas, ou dos bairros, ou das ruas, mas eu tinha tanta sede de conhecer tudo aquilo como se minha casa fosse - eu queria realmente pertencer, mergulhar, fazer parte daquilo como se eu nunca tivesse estado em qualquer outro lugar. Eu queria me situar, aprender a andar sem os mapas, queria a sensação de que, enfim, morava ali. Eu moro aqui agora, era algo que eu repetia para mim mesma, e acho que nunca saberei explicar o quanto aquela breve sentença me preenchia - e falo isso do ponto de vista de alguém que já morou em quatro cidades diferentes, em 8 endereços apenas no Recife. Eu chorei naquela noite, e chorei muito.





O que eu não sabia, porém, era o quanto seria difícil explicar para qualquer outra pessoa o que eu sentia ao estar ali. Eu poderia escrever quantas newsletters fossem, que acho que só quem se sente em casa estando fora dela seria capaz de entender. É fácil se sentir feliz "de férias", em um lugar novo, fora da nossa rotina e da nossa realidade, mas para mim não era apenas isso. Era mais, muito mais, tão mais que só havia uma forma de tentar transportar as pessoas para aquele mesmo sentimento: escrevendo um livro sobre.

Durante os três meses que vivi em Florença, eu escrevi muito. Tentei registrar o máximo que pude, da maneira como meu apartamento parecia o lugar mais gelado da Terra todas as manhãs a diálogos que tive com quem cruzou meu caminho. Escrevi não por não confiar na minha memória, mas apenas porque, ao escrever, eu poderia reviver tudo aquilo sempre que lesse aquelas páginas. Escrevi para vocês, também, que estão me acompanhando aqui há tantas semanas, porque se teve uma coisa que aquela cidade me ensinou é que a gente merece viver a vida que a gente sonha.

Perfeccionista que sou, muitas vezes me questionei sobre o formato, como, quando, onde, até que me dei conta de que era apenas uma maneira de postergar algo que eu queria muito fazer. Eu queria muito compartilhar este livro, e a maneira que eu o idealizei levaria muito tempo, então decidi torná-lo simples, acreditando que minha narrativa pudesse, de alguma forma, transportar vocês sem grandes firulas ou distrações como um papel de gramatura especial ou uma capa bonita. Não que eu não pretenda fazer isso - pretendo e ainda vou - mas não esperar muito para publicá-lo talvez seja, também, minha própria maneira de não permitir que esses sentimentos adormeçam com o passar do tempo. Pousei no Aeroporto do Recife há apenas 5 dias, e toda vez que entro em casa e o endereço não é a Via Panzani 14, isso já parece tempo demais.

Até semana que vem, com mais detalhes sobre o que, honestamente, sinto como se fosse o trabalho da minha vida. Um beijo,

S.

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Essas fotos foram tiradas na Ponte alle Grazie, no começo de maio. Foi um dos dias mais felizes em Florença, e há tanta coisa escrita sobre esse dia que hoje olho pra essas fotos e fico verdadeiramente feliz por ter feito esses registros. Não sei quem são as pessoas nas imagens, e ao fundo é possível ver a Ponte Vecchio. Era o início da noite, e a cidade fica especialmente bonita quando as luzes estão se acendendo mas o céu ainda está um pouco claro - céu de primavera, que só fica realmente escuro apenas por volta das 9 da noite.

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