"Eu sabia que havia algo para mim ali, algo muito pessoal, relacionado à descoberta de quem eu sou, que eu precisava viver e entender."

Os textos que você encontra aqui foram originalmente publicados na minha newsletter semanal, que é enviada todas as segundas às 11h, horário de Brasília. Neste mesmo dia e hora, atualizo esta página com o texto enviado na semana anterior. Clique aqui para assinar a news e não perder as atualizações!

Itália, 2018, parte 2

Na primeira vez que estive na Itália, estava vivendo o início de um romance. Antes de pisar em Roma pela primeira vez, como contei na newsletter anterior, me lembro de ter desejado ir com eles para a Inglaterra para celebrar o casamento da irmã mais velha, mas não pude, afinal ainda era muito cedo. O que eu não sabia é que, poucos meses depois, eu viveria tudo aquilo de novo, só que em circunstâncias completamente diferentes. Agora eu me sentia incluída na família, fazendo parte dos planos, e a coincidência de estarmos indo justamente para a Itália só me fez pensar que algumas coisas são feitas para... ser. Estive lá sozinha, no começo de tudo. Agora estava voltando para lá, só que com eles. Tudo me levava de volta para a Itália.


Me juntei a eles numa breve viagem em setembro de 2018, poucos meses depois de ter estado lá pela primeira vez. Fazia parte do nosso "acordo" que a pessoa que estivesse pagando as passagens aéreas não pagasse pelas despesas locais - era assim que tentávamos fazer aquele relacionamento à distância funcionar, e também foi assim que consegui estar na Itália pela segunda vez no mesmo ano. Acho importante destacar essa parte porque não estamos escrevendo sobre uma realidade paralela em que se viaja ao exterior mais de uma vez ao ano, mas de duas pessoas que estavam realmente se esforçando para fazer algo funcionar. Estamos falando de 2018, também, e as coisas mudaram muito de lá pra cá. Por conta desse vai e vem foram muitas as vezes que fui questionada pela fiscalização aduaneira sobre o motivo de ter repetidos carimbos ingleses no meu passaporte. Contei a história do meu relacionamento para a polícia algumas (várias) vezes.

Ao desembarcarmos na Itália, tudo de imediato me pareceu familiar. Tudo ainda estava muito fresco na minha memória, das estações de metrô aos pontos turísticos. De certa forma eu sentia mais conexão com os italianos do que com os britânicos, não sei se pela familiaridade do idioma, o tom de pele ou o jeito de falar alto. Era como se eu estivesse em casa mostrando a vizinhança para a família. Naquela segunda vez, eu já sabia pedir por bilhetes de ônibus, pedir um café e entender as fermatas do metrô, ou que as saídas seriam alla destra ou alla sinistra. Depois de revistar Roma, deixamos o Lazio e pegamos um trem rumo à Toscana, e foi ali que meu coração parou de vez.


Tem algo na Toscana que atinge em cheio uma pessoa sonhadora como eu. Talvez seja a paisagem bucólica, os campos com árvores esparsas, as cores quentes das casas e as cidadezinhas que mais parecem vilarejos medievais. Pegamos um trem direto para Florença. Olhando para trás, agora, eu não consigo me lembrar de muitos detalhes dessa minha primeira visita à cidade. Não me lembro exatamente onde me hospedei, em qual parte da cidade, ou perto do quê. Acho que todas essas informações menores foram na verdade suprimidas pelas sensações arrebatadoras que Florença me provocou. Me lembro exatamente de como me senti quando vi de perto o David de Michelangelo, com seus cinco metros de altura, ou do deslumbramento com as cores vibrantes da Ponte Vecchio sobre o Rio Arno. Tudo parecia calmo e sereno, com tantas histórias para contar. Havia algo diferente naquela cidade. Havia muito para aprender, muito para absorver, mas eu estava ali numa viagem que não me pertencia, por assim dizer. Eu estava ali de passagem, como convidada. Mas eu queria mais. Desde o primeiro momento em que pisei na Itália, em janeiro daquele ano, eu já sentia que havia algo a mais para mim ali. E foi em Florença que eu tive certeza. Eu sabia que aqueles poucos dias não seriam suficientes para mim - eu queria voltar, viver aquilo no meu próprio ritmo, e que o que eu estava vivendo era apenas uma confirmação desse desejo. Durante todos os dias que passei na cidade, me lembro de pensar comigo mesma que em algum outro momento da minha vida eu voltaria ali. Foi ali que a inquietação se instalou para não sair mais.

Era verão e fazia muito, muito calor. Eu tinha um vestido jeans na época e me lembro de tê-lo usado bastante. É ele que aparece na maioria das fotos que fiz em Florença. Hoje olho para elas e penso que aquele vestido me fazia parecer ainda mais nova do que eu realmente era, assim como meu cabelo curto. Não sei explicar - há algo naquelas imagens que me fazem pensar na felicidade pura e absoluta de quem estava vivendo uma fantasia completa. Eu tinha só 25 anos. Não tinha como ser melhor do que aquilo. Ou tinha? Eu estava flutuando por ali, e talvez também seja por isso que simplesmente não consigo me lembrar de tantas coisas. Naquela época era fácil encontrar vinhos por 1 euro no supermercado, e todas as nossas noites aqui foram regadas por eles. Só me lembro de termos ido em um restaurante uma vez, mas não sabia qual, nem onde, e tudo que restou foi uma foto de família. Essa foto foi importante 4 anos depois, mas essa é uma história para uma newsletter mais pra frente.


Naquele verão, passei cerca de 10 dias na Itália, entre uma cidade e outra. Mas eu não queria ser turista. Eu queria estar em casa, eu queria explorar, eu queria pertencer. Estava feliz por ter tido a oportunidade de estar ali novamente em tão pouco tempo, mas eu queria mais. Não me entendam mal, o querer mais aqui não era, de forma alguma, por estar insatisfeita. Eu estava feliz e extremamente grata. Mas aquele período só ajudou a plantar dentro de mim algo que, alguns anos depois, mudaria a minha vida completamente. Mas esse é o assunto da próxima newsletter.

Até semana que vem,

S.

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