"Eu sabia que havia algo para mim ali, algo muito pessoal, relacionado à descoberta de quem eu sou, que eu precisava viver e entender."

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Florença, abril 2022



Estávamos sentados no bar de sempre, com aquelas paredes laranja vibrante, apertados entre uma pilastra e outra enquanto tentávamos ouvir uns aos outros no meio do ruído - pessoas conversando ao nosso redor, fazendo pedidos à atendente, músicas tocando em playlists aleatórias com idiomas difíceis de distinguir. De alguma forma aquele cenário pitoresco parecia evocar os mais improváveis temas: falávamos sobre política, sobre os problemas sociais nos nossos países de origem e os estereótipos das nossas culturas, e outras pautas que eram o oposto do que poderia se esperar de uma conversa em um minúsculo bar em uma transversal apertada de Florença.

Naquele dia, ele falou sobre mãos.

Não me lembro bem como chegamos a esse assunto, mas ele disse que sempre reparava nas mãos das pessoas porque elas diziam muito sobre elas. Não era como um fetiche, mas um detalhe, algo que observava enquanto tentava entender um pouco mais sobre as personalidades daqueles que tinha acabado de conhecer. Aquele comentário me fez imediatamente pensar sobre minhas próprias mãos, e me perguntei o que ele pensaria sobre mim se tivesse me conhecido alguns meses antes.

Joalheiros não tem mãos bonitas. Certas marcas, cicatrizes e feridas são parte da profissão, como os pequenos cortes feitos pela serra que, apesar de superficiais, incomodam tanto quanto cortes feitos por papel. Finos, pequenos, mas doloridos. Há também as marcas feitas pelas lixas de polimento, pela pressão exercida nas pontas dos dedos, pelas marteladas acidentais, e todo tipo de pequenas cicatrizes causadas pelas mais diversas ferramentas. Na joalheria, são as mãos "feias" e calejadas que fazem as coisas mais bonitas.

Eu não praticava a ourivesaria diretamente desde que havíamos contratado um ourives para a marca. Para mim, aquilo tinha sido uma grande conquista, e naquele momento, sentada naquele bar, uma conquista relativamente recente. Me afastei da bancada e lentamente minhas mãos deixaram de denunciar meu trabalho. Hoje, olhando para trás, penso que essa pequena mudança tenha sido também uma das mais significativas: talvez tenha sido ali o começo da minha própria desconexão com o que eu fazia. Por anos tive as mãos feias e feridas, hoje tinha as mãos… normais.



Mas então veio a pandemia. Meu corpo sempre teve sua própria maneira de denunciar meu stress velado, como amigdalites repentinas ou resfriados fortíssimos que me deixam completamente de cama por apenas 24 horas, mas foi durante a quarentena que fui apresentada a uma outra forma de manifestação das minhas próprias angústias internas: problemas de pele. Uma das crises aconteceu durante uma mudança de apartamento não planejada, onde fiquei com o abdômen completamente coberto por manchas como aquelas em crianças quando tem catapora. Me lembro de sentir vergonha ao usar qualquer peça de roupa que deixasse as manchas à mostra, e o medo de parecer que estava com alguma doença contagiosa me deixava ainda mais angustiada, agravando o problema. O diagnóstico? Pitiríase rósea. Não era contagioso, não tinha outros sintomas, e com algumas semanas as manchas sumiram sem deixar vestígios - mas aquela não foi a única coisa.

Foi quando a disidrose atacou as minhas mãos que percebi que algo realmente estava errado. Feridas abriram sobre meus dedos, de uma forma que até executar pequenas tarefas domésticas era insuportável. Eu precisava usar luvas para quase tudo, e em pouco tempo vi minhas impressões digitais desaparecerem. Minhas mãos estavam sempre muito vermelhas e sensíveis, e eu precisava me explicar sempre que alguma situação exigia identificação biométrica, da entrada na academia a transações bancárias. Eu nunca tinha tido vergonha das minhas mãos de ourives, mas naquele momento eu as escondia sempre que possível.

Com o tempo e alguns corticóides depois, minhas mãos foram melhorando a ponto que, hoje, quase não é possível notar algumas bolhas e descamações que acontecem ocasionalmente. Também não há mais cortes de serra, não há mais feridas abertas, não há aquela pele fina e dolorida que gritava para o mundo que algo não estava tão bem. Aprendi quais produtos evitar e quais esmaltes hipoalergênicos escolher, e hoje olho para minhas próprias mãos com mais carinho pois sei as feridas que elas carregaram na minha trajetória para que eu pudesse estar ali, naquele momento, sentada naquele bar.

Ele estava certo. Minhas mãos diziam mais sobre quem eu era do que eu poderia imaginar.

Até semana que vem,

S.

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