"Eu sabia que havia algo para mim ali, algo muito pessoal, relacionado à descoberta de quem eu sou, que eu precisava viver e entender."

Os textos que você encontra aqui foram originalmente publicados na minha newsletter semanal, que é enviada todas as segundas às 11h, horário de Brasília. Neste mesmo dia e hora, atualizo esta página com o texto enviado na semana anterior. Clique aqui para assinar a news e não perder as atualizações!

Brasil, setembro 2019

Uma breve conclusão sobre relacionamentos à distância: eles funcionam se você tiver um plano. Em algum momento, em um relacionamento como este, alguém vai precisar abrir mão de muita coisa e talvez você não esteja preparado para (ou nem queira) fazer isso aos 27 anos. Tenho certeza de que fizemos o melhor que podíamos, mas sem um plano ligações por vídeo-chamada ficam extremamente cansativas e dolorosas. Vivemos aqueles dois anos da melhor maneira possível, mas as coisas estavam começando a mudar e viajar foi ficando cada vez mais difícil. O Brexit estava batendo à porta, e estávamos prestes a entrar no período mais difícil em muitos anos. Em setembro de 2019, em uma última vinda ao Brasil, percebemos que seria realmente difícil continuar. No começo de outubro, o levei ao aeroporto e nunca mais nos vimos de novo. Em dezembro, apenas 2 meses depois, os primeiros casos de COVID apareceram em Wuhan.


Pra explicar o período entre outubro de 2019 e março de 2020 de uma maneira bem simples, eu diria que vivi o máximo que pude. Me joguei como nunca antes, - era meu primeiro Carnaval solteira daquela forma (eu tinha passado poucos Carnavais sozinha antes, mas não daquele jeito, não tão segura de mim, depois de ter vivido coisas tão diferentes e tomado tantas decisões importantes. Era simplesmente diferente). Eu posso contar nos dedos as prévias e festas que não fui - e uma delas eu só faltei por causa de um acidente de skate.

Tem algo na energia do Carnaval que aproxima as pessoas. As lembranças, os momentos. Há também o vínculo de proteção que se fortalece naquele momento, as mensagens onde se avisa que chegou em casa em segurança, o "segura na minha mão e não solta" para atravessar os Quatro Cantos. Se você nunca esteve em Olinda durante o Carnaval, os Quatro Cantos são exatamente o que o nome diz: um cruzamento onde pessoas vem de quatro direções diferentes. Imagine isso no meio de uma multidão. É mágico e é louco ao mesmo tempo. É mais inteligente evitar passar por ali, mas às vezes acontece, e é na mão dos seus amigos que você segura com força até estarem todos tranquilos novamente. O segurar de mãos que começou nas prévias seguiu para o Carnaval e continuou nos trajetos de Uber até em casa por muitas noites, especialmente madrugada à dentro. Era um vínculo de proteção, e assim dizíamos que continuaríamos "até o final da novela". Apesar de aquilo tudo ser muito evidente para todos, as linhas eram tênues. Era tudo opaco, e não claro como cristal.



A pandemia derrubou o Carnaval e também derrubou meu trabalho. Fechei a loja em 17 de março de 2020 para nunca mais abrir de novo. Me lembro de ter entrado em pânico muitas vezes, como todo mundo, e com a ajuda da minha equipe conseguimos segurar as pontas. Não foi fácil mudar um negócio completamente, até hoje não é, e mal sabia eu o tanto que as coisas mudariam dali para frente. Com um lockdown iminente, aquele segurar de mãos virou virtual e eu sentia muito a falta dela.

Acho que o começo da pandemia deixou todo mundo nostálgico e fomos todos obrigados a olhar pra dentro de uma forma muito intensa, e isso foi trazendo o assunto Itália de volta para mim. Eu queria sentir tudo aquilo de novo, a felicidade, a excitação. Revisitei memórias, fotos, lembranças. Virou um refúgio. Aos poucos aquele refúgio foi virando um escape e de certa forma foi me dando algum sentido, ou algum propósito, por assim dizer. A referência aos meus dias na Itália - alguns vividos e alguns fantasiados - passou a estar cada vez mais presente no meu trabalho, especialmente na fotografia. Quando só se podia estar em casa, era através das minhas fotos que eu criava as realidades que eu gostaria de estar vivendo, e todas elas se passavam na Itália. Minha vida e meu trabalho viraram um ode à la dolce vita. Eu não estava feliz ali (e quem estava, afinal?), me sentia com medo e desesperançosa, e foi nessa fantasia em que eu me agarrei para conseguir seguir em frente. Eu só não fazia ideia de que me agarraria nisso com tanta força.

"Quando tudo isso acabar, vou voltar para a Itália, então vou usar todo o tempo que eu tiver para me preparar para isso". E foi o que eu fiz.


Continua na próxima semana.

-

As fotos ilustrando a news de hoje foram tiradas dentro de durante os primeiros meses da pandemia. Receitas, limões, luz solar e belas garrafas de vinho eram sempre temas recorrentes. Como eu disse, de certa forma era o que eu queria estar vivendo, então foi a fantasia que eu criei.


79 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo