"Eu sabia que havia algo para mim ali, algo muito pessoal, relacionado à descoberta de quem eu sou, que eu precisava viver e entender."

Os textos que você encontra aqui foram originalmente publicados na minha newsletter semanal, que é enviada todas as segundas às 11h, horário de Brasília. Neste mesmo dia e hora, atualizo esta página com o texto enviado na semana anterior. Clique aqui para assinar a news e não perder as atualizações!

Brasil, pandemia, maio 2020

Era maio de 2020 quando recebi a notícia de que meu apartamento tinha sido vendido.

Os até então proprietários haviam se mudado para Londres, logo ela, a mesma Londres onde eu tinha vivido aquelas lembranças que compartilhei na primeira newsletter dessa sequência. Os conheci pessoalmente quando fizeram uma visita ao Brasil e foram lá em casa (no apartamento que pertencia a eles), e também passaram pela popup da Tout no Shopping Riomar. Era perto do Natal e eles compraram presentes. Em pouco tempo de conversa tive a certeza de que, se eles ainda morassem no Recife, também teríamos nos esbarrado de alguma outra forma, pois frequentamos lugares semelhantes e temos conhecidos em comum. Estaríamos nos mesmos ambientes, por assim dizer. Foi ainda mais especial saber que eu habitava um lugar que havia sido pensado por pessoas com quem eu me identificava verdadeiramente.

Para seguir com a vida em Londres, os dois precisavam vender o apartamento no Brasil. Como inquilina, eu tinha a preferência de compra, mas a aquisição de um apartamento não era (e nem é hoje) parte da minha realidade. Eu fiquei triste, de verdade, pois queria poder permanecer ali, mas também entendia a importância desse encerramento de ciclo para eles. Daquele apartamento no quinto andar eu levaria as memórias das pessoas que passaram por ali, dos drinks no chão da sala, do meu amigo artista que veio fazer uma intervenção na parede, da minha prima que por algum tempo dividiu aquele espaço comigo, da cadeira de balanço que pendia do teto, e também dos corações partidos. O apartamento foi comprado pelo meu então vizinho de porta naquele mesmo mês, e comecei o processo para me mudar em pleno auge da pandemia. Mal sabia eu que seria a primeira mudança de duas num espaço de um ano.




O processo dessa minha mudança foi pesado, difícil. Era um apartamento grande, a Tout ainda funcionava dentro de casa e era uma mistura de coisas pessoais e profissionais. Logo de início decidi que venderia o máximo de coisas que pudesse. Foi ali que começou minha jornada para me livrar do peso das coisas: não apenas do peso literal, mas da energia que objetos demais carregam. E lembrem-se: era maio de 2020, auge da pandemia, e eu estava fazendo uma mudança não planejada (e não desejada) praticamente sozinha, já que não era possível encontrar com as pessoas. Com o lockdown, não havia muito tempo nem disposição para procurar por novos apartamentos, então escolhi um super próximo, mesmo tamanho, mesmo valor, velho de doer. Tentei usar a reforma como algo que me desse alguma animação, uma motivação dentro daquela situação desconfortável, mas devo dizer que apesar de adorar reformas aquela foi especialmente cansativa. No dia exato da minha mudança o vidro da janela do meu carro espatifou, sem muita explicação. Hoje vejo isso como um sinal de energia, quer vocês acreditem nesse tipo de coisa ou não. Uma amiga prontamente emprestou o carro dela para me ajudar e outro amigo passou o dia inteiro da mudança comigo. Comemos pizza no jantar com caixas espalhadas pelo apartamento inteiro. Pequenas coisas que a gente não esquece e agradece.


Apesar de estar numa casa nova, eu já não me sentia mais em casa. Por um tempo foi difícil admitir isso, especialmente para mim mesma. Eu tinha colocado tanta energia naquela mudança, isso sem falar do desgaste emocional que a pandemia estava causando em todos. Eu tentei curtir os espaços do apartamento novo, a grande árvore na frente da minha varanda, a rede na qual eu assistia televisão, mas eu não conseguia pertencer àquele lugar. Talvez esse "não me sentir em casa” tenha muita relação com a maneira como cresci, me mudando a cada poucos anos, vivendo longe da família, então esse conceito sempre foi muito amplo e disperso para mim. Por muito tempo, casa foi algo de passagem, temporário. Só em Recife, aquele já era o oitavo endereço diferente para mim. Eu não aguentava mais não estar em casa em lugar nenhum - eu me sentia espalhada por tantos lugares diferentes, mas nenhum conseguia me dar aquela sensação de pertencimento como eu senti lá. Na Itália.

Com as fronteiras fechadas, não havia muito que eu pudesse fazer senão esperar. Eu pensei, cogitei, planejei e idealizei aquilo por muito tempo, e eu queria estar pronta assim que fosse possível viajar novamente. Eu não fazia ideia de quando isso seria possível, e muitas vezes me questionei o porquê de ter colocado aquilo na cabeça. O mundo inteiro estava à beira do colapso, e eu também, mas foi essa fantasia que pautou a minha vida todos os meses seguintes. Mas pautou também minhas relações. Quando você quer tanto ir embora, você quer fugir de tudo que pode te prender naquele lugar. E isso inclui pessoas - mas nesse caso fugir nem sempre é possível.

Continua na próxima semana.

S.

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