"Eu sabia que havia algo para mim ali, algo muito pessoal, relacionado à descoberta de quem eu sou, que eu precisava viver e entender."

Os textos que você encontra aqui foram originalmente publicados na minha newsletter semanal, que é enviada todas as segundas às 11h, horário de Brasília. Neste mesmo dia e hora, atualizo esta página com o texto enviado na semana anterior. Clique aqui para assinar a news e não perder as atualizações!

Brasil, janeiro 2022

A pandemia estava dando alguns sinais de melhora. Em janeiro, eu já tinha tomado as duas primeiras doses da vacina. No exterior, o turismo iniciava uma retomada mas o Brasil ainda estava na lista de restrição de muitos países - e a Itália era um deles. Aqui é o ponto em que preciso voltar alguns meses na história para contextualizar o que viria depois.

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Acho que nunca vou contar de verdade como nos conhecemos - é uma história longa e irrelevante aqui, mas vou sempre contar das inúmeras vezes que nos ligamos durante a pandemia para desabafar e contar as dores e as delícias de tentar manter um negócio vivo em um momento tão particular. Nós éramos pessoas muito diferentes, nascidas e criadas em contextos opostos, mas tínhamos uma coisa em comum: ambos estavam tentando manter nossas empresas em funcionamento enquanto o mundo estava em um momento extremamente difícil. De alguma forma nossas diferenças nos aproximaram, e mesmo que nós não nos falássemos tanto ou com tanta frequência, acabamos virando um ponto de conforto um para outro, com pontos de vista completamente diferentes sobre problemas muito parecidos.

Me lembro de uma ocasião em especial, no começo de 2021, que liguei para ele em completo desespero, aos prantos debaixo do chuveiro, dizendo que eu tinha falhado com minha própria empresa. Nossa amizade sempre foi assim - a gente sabia que poderia contar um com o outro quando as coisas não eram necessariamente bonitas, e sempre tentávamos racionalizar os problemas para de alguma forma oferecer um outro ponto de vista, clarear as ideias, ou apenas tentar confortar, ainda que parecesse uma tarefa difícil à distância.

De longe pudemos assistir nossos trabalhos darem muitas voltas, mas a situação aqui no Brasil estava bem difícil e o sonho da Itália parecia impossível. Eu precisava deixar o romantismo de lado e ser realista, especialmente com uma moeda tão desvalorizada em relação ao euro, e eu sabia que seria difícil demais ou absolutamente imprudente tentar viajar às custas da minha empresa no Brasil. Então, juntei tudo que eu tinha feito na minha vida profissional até então com toda a confiança que eu poderia ter, e pedi, sem medo, por uma oportunidade. Naquele ponto, eu conhecia a empresa dele de alguma forma, sabia um pouco sobre os clientes, e sabia que eu poderia ter algo a oferecer com a experiência que tinha tido com a Tout até aqui - as boas e as ruins. Em outubro de 2021, tive uma primeira reunião com os sócios. Em novembro, comprei as passagens. Em fevereiro, eu embarcaria para realizar um sonho e estaria trabalhando para uma empresa local no tempo que estivesse lá.



Não acho que tenha sido apenas sorte, porque esse não é o tipo de coisa que acontece assim, ao acaso. Me ofereceram uma oportunidade única, pra uma experiência que eu tinha passado os últimos anos da minha vida sonhando. Sem ela, a viagem não seria possível, pelo menos não neste momento, ou nem tão cedo. E o objetivo de ter contado isso nessa sequência de newsletters é simples: eu precisava dizer que a vida é, acima de tudo, sobre pessoas. É impossível realizar um sonho sozinho.

Foram muitas as pessoas que permitiram que esse sonho se realizasse. Muitas mesmo. E, junto com a gratidão imensa, veio também a culpa. Eu não sabia, até algumas semanas antes de embarcar, que essa viagem me faria lidar com tantos sentimentos diferentes, todos eles poderosos. Eu sabia que essa experiência iria me transformar enquanto pessoa, mas não tinha noção do quanto até ter que lidar com todos os anjos e demônios de quem eu sou, sozinha, do outro lado do mundo. No dia em que finalmente pude comprar as passagens, era como se também estivesse comprando tickets para uma extraordinária e intensa viagem de autoconhecimento - mas esse é o assunto da próxima newsletter.

Até semana que vem,

S.

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