"Eu sabia que havia algo para mim ali, algo muito pessoal, relacionado à descoberta de quem eu sou, que eu precisava viver e entender."

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Brasil, fevereiro 2022

Nas semanas antes de viajar eu estava uma pilha de nervos. Parecia tão perto, mas tão longe ao mesmo tempo, e era difícil até de acreditar que eu estava prestes a embarcar depois de ter esperado tanto. Chorei todos os dias nesse período, por motivos diferentes - chorei de felicidade, chorei de nervoso, e chorei muito por culpa também, e não conseguia conversar sobre o assunto com ninguém. De certa forma, eu não achava justo compartilhar tanto sobre aquele momento com as pessoas que eu estava "deixando para trás" - na minha cabeça, eu pensava que estava passando por aquilo por uma escolha minha, e minha somente, e que as pessoas ao meu redor não precisavam lidar com aquilo também. Era difícil me abrir sobre, e até quando eu encontrava colo eu tinha sentimentos conflitantes entre aceitar minha própria fragilidade ao mesmo tempo que eu achava que não era justo com quem estava ao meu lado. Culpa, culpa, culpa. O tempo todo.

Realizar um sonho que envolva deixar muita coisa para trás não é fácil. Naquele ponto eu já tinha vendido praticamente todos os meus móveis, já tinha entregue as chaves do meu apartamento alugado, e o que restava estava trancado em um depósito ou no escritório da Tout. Na verdade, acho que senti que era real no dia que vendi meu carro - tomei essa decisão não apenas pelo dinheiro, mas também por ser um carro de +10 anos que simplesmente não aguentaria passar tanto tempo sem ser usado. Foi o primeiro e único carro que tive na vida, comprado já usado, e foi nele que fiz todas as minhas mudanças, abri todas as lojas e pop-ups da Tout, viajei, fui à praia inúmeras vezes, e cheguei em vários lugares que estão hoje na minha memória. Todas as pessoas próximas a mim tinham uma história com aquele carro e um carinho especial por ele. No dia que entreguei a chave e voltei pra casa de Uber, foi um baque. Chorei muito. Nesses momentos, eu sempre me perguntava - Por que realizar um sonho tinha que tirar tanto de mim? Parecia que eu estava arrancando pedaços da minha história, as coisas que construí e conquistei, para ir atrás de algo muito menos material e mais introspectivo.





Mas por que a gente carrega tantas coisas na vida, afinal? Ao mesmo tempo que era difícil, eu sentia que me livrar de todo aquele peso era necessário. Todas as coisas que eu queria simplesmente não eram coisas.

No trabalho, eu me esforcei muito para deixar tudo preparado para a minha ausência, mas buscar a perfeição foi outro motivo de frustração. O tempo passou rápido demais e eu não consegui fazer nem metade das coisas que gostaria. Eu sabia que estava correndo um grande risco fazendo isso, e aceitá-lo também não foi das tarefas mais fáceis. Minha família e meus amigos tentavam ajudar dizendo que eu voltaria, que tudo passaria rápido, mas no fundo do meu coração eu sabia que nada seria o mesmo quando eu voltasse - se voltasse.Eu sabia que estaria voltando para estaca zero, para recomeçar, para fazer tudo de novo, e aquilo me assustava muito. Honestamente, acho que além de ser um imenso privilégio poder tomar as decisões que tomei, também foi algo muito corajoso e com uma boa pitada de loucura. Será que eu estava fazendo as escolhas certas? Por que eu tinha que ser tão teimosa e tão cabeça dura a ponto de não conseguir abrir mão daquela fantasia que eu mesma tinha criado? Por que, com tudo que eu tinha no Brasil, eu tinha que querer estar tão longe e ter que abrir mão de tudo? Por quê que eu tinha que dificultar tanto as coisas?

Eu não tinha resposta pra nenhuma daquelas perguntas. Mas tudo fez sentido no dia 24 de fevereiro de 2022, quando eu finalmente desembarquei no Aeroporto de Peretola, Florença, Itália.

Até semana que vem,

S.

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